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Planejar, se possível for
José Renato Nalini
A ilusão de que a vida seja eterna faz com que sejam adiados os projetos apregoados como os mais importantes. O século XXI seria aquele do "ócio garantido", era em que se trabalharia muito menos e haveria tempo para viagens, lazer, cultura, hobbies ou mero descanso. Parece que falharam os prognósticos. Não sinto a disponibilidade prometida. Intensificam-se os compromissos, as requisições, os desafios. Já cheguei a pensar que o tempo sofreu efetiva alteração em sua contagem. Não seria mera impressão, mas constatação efetiva de que o movimento de rotação e de translação do planeta sofreram aceleração real.
O trabalho leva um tempo cada vez maior daqueles que precisam dele ou dos que gostam do que fazem. A ocupação do intelecto não é menos cansativa do que o labor físico. Este, por sinal, parece prolongar o bem estar físico e mental. Aquele extenua. Deprime. Angustia. Estressa e mata.
Por isso é que o exercente de atividade que faz pensar deveria levar a sério o chamado "período sabático". É um estágio recomendável ou até mesmo essencial para a reflexão. Chama-se "sabático" porque inspirado no sétimo dia, após à criação. "E então, Deus descansou!". A cada período de sete anos, as pessoas deveriam parar para refletir.
De maneira idêntica à preparação e planejamento para a carreira, as pessoas deveriam planejar essa pausa. Pois quem está cansado necessita é de férias, não de período sabático.
Um problema para os países emergentes é que tais cogitações ainda não são bem compreendidas pela cultura empresarial tupiniquim. Quem é que pode se dar ao luxo de parar por um ano, por exemplo? Aquilo que é praxe entre os empresários do Primeiro Mundo, ainda choca uma nação em que existem milhões de jovens desempregados, à busca de um emprego formal e - em regra - conformados a qualquer condição para o registro em carteira.
Aqui ainda prevalece aquela noção de que o mercado se altera durante o período sabático. Se o trabalhador não confia em sua competência, não adquire novas estratégias de desempenho, poderá voltar e encontrar o seu lugar ocupado. Por isso é que muitos empregados continuam a suportar injustiças, situação de desconforto ou de certa exploração, mas não saem com receio de vir o seu emprego entregue a alguém mais afinado com a cultura da empresa.
Já nos Estados Unidos, quase 20% das empresas têm programas especiais de período sabático para seus executivos. Destas, 5% oferecem programas remunerados de 3 a 6 meses. Aqui, na periferia, raras as empresas que oferecem tal tipo de opção. Somente os corajosos assumem o desafio de se demitir e buscar nova colocação quando retornam.
Uma pesquisa da Associação Americana de Recursos Humanos constatou que 18% dos executivos na faixa de 30 a 44 anos planeja sair ou já saiu em período sabático. Outros 43% gostariam de fazer o mesmo, mas não o fazem por motivos diversos. Dentre os quais, o medo de perder o emprego não é o menor deles.
Mesmo assim, alguns brasileiros já assumiram o risco de se auto-proporcionarem o período sabático. Para eles, vale mais a experiência internacional, aprender novos idiomas, fazer cursos em novas áreas. Fazer o "Caminho de Compostela" parece uma experiência fascinante. Enquanto isso, nos Estados Unidos isso é quase comum. Lá, os executivos entre 30 e 50 anos permanecem de 3 a 12 meses em experiência estrangeira mais vinculada a apoiar causas humanitárias.
Não há dúvida de que a pessoa volta outra depois disso. Mais animada, convicta de que valeu a pena. O panorama pessoal visto ao longe quanta vez propiciam visão mais adequada de situações ambíguas ou cobertas por uma penumbra emocional.
Quem não está satisfeito com aquilo que faz e, ao mesmo tempo, confia em si, deve assumir o risco dessa empreitada. Afinal, vive-se uma vez só. A vida não admite ensaios. Quando se vê, ela já se foi. E não é bom deixar para o vácuo aquele baú de sonhos irrealizados. Coragem, confiança, apego à vida e auto-estima são os ingredientes necessários para quem se aventurar. Ou então, amargue-se aquilo que se suporta nem se sabe como.
José Renato Nalini é desembargador do Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.
Escrito por Renato Nalini às 14h27
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País rico se dá ao luxo
Ao retomar minhas despretensiosas atividades físicas, paralisadas por conta de uma cirurgia, vim a saber que uma colega de academia falecera. Advogada, trocava idéias com ela enquanto fazíamos um pouco de esteira. Cuidava da saúde. Mas foi colhida pelo infarto. Quantas outras pessoas não são chamadas para o encontro definitivo sem qualquer aviso? Notícias como a do terremoto da China - já se aproxima a cifra dos 60 mil mortos! - não são tão alarmantes quanto as mortes individuais. Daqueles que nos dizem respeito. Que ocupam a nossa intimidade afetiva. Os familiares, os amigos, os mais próximos.
Ela está à espreita. Certa e inevitável como os tributos. Virá nos buscar a todos. E por mais perto chegue, a experiência fica ao longe. Como será o encontro com a própria morte?
Minha carreira tem limite de validade. Estabeleceu-se o limite de 70 anos para a aposentadoria compulsória de juízes, promotores, professores das Universidades Públicas, médicos dos hospitais estatais. O trabalhador em atividade física nem sempre atinge essa faixa etária. Mas o intelectual, presumivelmente mais cuidadoso com sua saúde, pode ultrapassá-la. Quantos aposentados já não ultrapassaram os noventa anos? Lembro-me bem do convívio que a Providência me propiciou nos últimos anos com o Professor Miguel Reale. Chegou aos 95 lúcido, ativo, a escrever semanalmente o seu artigo para o "Estadão" e a participar com espírito entusiasta de todas as sessões da Academia Paulista de Letras. Não faltava às quintas-feiras e estimulava os confrades a se interessarem por temas da atualidade.
Pois ele permaneceu 26 anos aposentado à força. Teve de deixar a cátedra da USP, universidade da qual foi reitor em duas oportunidades. Continuou ativo, mas poderia ter emprestado maior talento à formação de novos quadros, pudesse permanecer no corpo docente de sua Faculdade de Direito.
Um país pobre, como os Estados Unidos, permite que seus juízes fruam da vitaliciedade em sentido estrito. Só deixam o serviço ativo de maneira voluntária ou quando acometidos de enfermidade que lhes impeça de trabalhar. País rico, tal como o Brasil, se dá ao luxo de dispensar suas inteligências.
Pensei que os aspectos econômicos, tão considerados no pós-liberalismo, viesse a alterar essa situação. Pelo viés da economia não deixaria de passar pela cabeça de algum tecnocrata que o governo deverá pagar mais 20 anos de proventos a alguém que sai do serviço público aos 70 e continuará a perceber sua remuneração, enquanto o Estado pagará para alguém desempenhar os préstimos pelos quais ele poderia ainda responder a contento.
Mas isso não acontece. Agora mesmo, quando se tenta aprovar emenda acrescentando mais cinco anos ao limite de idade para a compulsória, os "jovens" prometem fazer vigília às portas do Parlamento, para impedir que a alteração seja aprovada.
Não se compreende essa reação, a não ser pelo egoísmo exacerbado que hoje caracteriza a sociedade brasileira. Não é por dinheiro. Ou seja: a desculpa costumava ser a de que os velhos ganhavam muito e os jovens demorariam bastante tempo para conseguir idêntica remuneração. Já não é o que acontece. Com a aprovação da lei dos subsídios, um juiz substituto em São Paulo começa o seu trabalho a perceber 18 mil reais por mês. Enquanto que o magistrado em final de carreira, diante do limite do teto, não pode perceber mais do que 20 mil.
Se existe um universo de atuação em que a experiência significa alguma coisa é o da Justiça. Tenho afirmado que a carreira da Magistratura deveria merecer uma inversão de enfoque. O juiz novo, inexperiente, é que deveria trabalhar em colegiado. À medida que o tempo passa, ele adquire experiência, maturidade, sensatez, equilíbrio e compreensão da vida. Aí, salvo algumas exceções, ele poderia trabalhar sozinho. Decidir monocraticamente. Pois parece desperdício, num país pobre, reunir seis pessoas mais idosas, com largo traquejo na arte de julgar, para decidir questões repetitivas, nem sempre originais e quase nunca a exigir singular tirocínio para merecerem solução adequada.
O Brasil dos paradoxos continua a decretar a velhice dos que fazem 70 anos e que ainda se sentem capazes de produzir. A mocidade, sarcástica e irônica, chama a proposta de emenda constitucional de "lei da bengala". Bengala que ela também usará. A não ser que a morte venha a ceifar muito antes os seus sonhos de permanência.
José Renato Nalini é desembargador do Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.
Escrito por Renato Nalini às 08h28
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