Pobre empregador
JOSÉ RENATO NALINI
O Brasil da miséria, da fome e da indigência moral poderia ser melhor, se o empresário pudesse contar com uma legislação racional. A herança do Estado Novo permanece - de maneira paradoxal e instigante - sob a égide de uma Constituição Cidadã.
Ninguém nega - nem mesmo o governo - a tributação excessiva sobre a folha de salários. No Brasil, paga-se um mínimo de 42,3%, podendo ultrapassar 50%, de tributos incidentes sobre os custos salariais. Somem-se contribuição previdenciária, seguro acidentes, sistema S, salário-educação, outros - Incra, por exemplo - FGTS, mais a parcela previdenciária cabente ao empregado. Que muito empregador também assume. Chega-se a um absurdo.
É por isso que se prefere a informalidade e quem desanimou encerrou atividades empresariais para dançar no bailado da especulação. Se o Brasil é bom para o dinheiro estrangeiro passar temporada, qual capital turístico ou volátil, por que não a poupança do próprio brasileiro?
Some-se a isso uma Justiça Trabalhista que, em regra - salvem as exceções! -, parte do pressuposto de que o trabalhador sempre tem razão. Ainda quando o empregador cumpre todas as suas obrigações, não é incomum ser pressionado a fazer um acordo, como forma oficiosa de redistribuição da renda.
Esse quadro assusta o empreendedor e o Brasil precisa se servir da informalidade. Quem sofre mais é a parte mais fraca. Ela dispõe de menos oferta do que seria necessário. Quem é que não tem na família alguém à procura de emprego ou não conhece um desempregado?
No mundo inteiro, flexibiliza-se a relação trabalhista. Mesmo porque, se existe alguma coisa que virou ficção é o emprego. Antigamente, o ideal de um pai era ver seu filho a trabalhar por exemplo na Companhia Paulista de Estradas de Ferro ou no Banco do Brasil. Empresas idôneas, que asseguravam uma carreira. Progressão gradual, crescimento em responsabilidade e em salário compatível com a experiência. Segurança para toda a vida e, principalmente, para uma aposentadoria suficiente a fazer face ao dispêndio da velhice.
Hoje não. A rotatividade é a regra. É muito fácil conseguir "refil" para qualquer ocupação ou posto. Jovens formados não têm onde iniciar sua vida profissional. Por isso é que a enxurrada de bacharéis se destina ao concurso público. Um dos últimos lugares na face da Terra em que, independentemente da eficiência, da produtividade e da assimilação de novas metodologias, ninguém é posto na rua.
Pois a desoneração da folha salarial não entra nas cogitações mais urgentes do governo. Na reforma tributária há uma timidez evidente. A promessa é reduzir a contribuição previdenciária de 20% a 14%, mas num prazo de 6 anos. A cada ano, depois de aprovada a reforma, por emenda à Constituição, o empregador seria desonerado em 1%. Desoneração que será compensada pela elevação de outros tributos. Também se acena com a extinção do salário educação. Mas é muito pouco para a pretensão desenvolvimentista dos mais otimistas.
Há quem não acredite na reforma. Nem na sua inspiração, nem nos seus resultados. vez fosse o caso de o país mudar seus rumos. Desburocratizar de verdade. Cumprir a Constituição quando ela incentiva o associativismo e a livre iniciativa. Se a iniciativa é livre, por que onerá-la com inúmeros entraves? Por que juridicizar toda a vida cidadã? Por que não reconhecer a informalidade, permitir que as pessoas façam aquilo que as torna mais felizes, em lugar de acenar com ficção? Emprego, daqui por diante, será ficção. O que as escolas devem fazer é ensinar o estudante a sobreviver. O final do curso deveria entregar não um diploma - de que serve um diploma hoje? - mas um manual de sobrevivência na selva burocrática.
Mas é claro que isso também é ficção. Quem acreditou na visão de Domenico Masi, de que o século XXI seria a era reservada ao ócio prazeroso, enganou-se. Há quem trabalhe muito. Já não há idade para deixar de trabalhar. Quem criou filho pensou que iria ser sustentado pela prole e, quando vê, continua a sustentá-la.
É preciso um novo olhar sobre a vida. Menos complicada, menos documentada, menos permeada de carimbos, reconhecimentos de firma, certidões, registros e assentos. Vida mais livre. Vida sem pretensões excessivas. Vida singela, que talvez seja o caminho para uma existência mais feliz.
José Renato Nalini é desembargador do Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.
Escrito por Renato Nalini às 06h45
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