Blog do Renato Nalini


Prezados leitores,

Agora é definitivo. Estamos de mudança para nova plataforma, que permite explorar novas ferramentas e incrementar a interatividade.

As mudanças virão aos poucos. Por ora, convido-os a conhecer a nova casa deste blog: http://renatonalini.wordpress.com. O blog é feito para vocês, por isso conto com a sempre bem-vinda participação de todos, seja através das visitas, seja por meio de comentários, críticas e sugestões. Procurarei responder a todos, conforme o tempo me permitir.

Peço-lhes ajuda para divulgar o novo endereço. Aproveito também para desejar-lhes uma Feliz Páscoa!

Obrigado,

Renato Nalini



Escrito por Renato Nalini às 18h42
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Prezados leitores,

Está funcionando em caráter experimental uma nova versão do meu blog. Procurei acolher a maior parte das sugestões apresentadas por vocês, tendo em vista o direcionamento para temas de meio ambiente e a utilização de caracteres que facilitam a leitura.

Espero que gostem. Faço, independentemente disso, um convite para que acessem o blog e dêem suas opiniões.

O endereço é: http://renatonalini.wordpress.com. Fiquem à vontade para se manifestar neste espaço ou naquele.

Obrigado,

Renato Nalini



Escrito por Renato Nalini às 16h44
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Partida gloriosa


José Renato Nalini

E Jundiaí perde o bispo DOM GIL ANTONIO MOREIRA. Em compensação, JUIZ DE FORA ganha o Arcebispo DOM GIL ANTONIO MOREIRA. É a lei da compensação, presente e inevitável no convívio humano. No lustro em que esteve a pastorear a Igreja Particular de Jundiaí, DOM GIL se mostrou um sacerdote cioso de seu compromisso com a verdade. Muitos não entendem que a Igreja Católica Apostólica Romana tem compromisso com Cristo, não com o Ibope.

Quando indagam - O que a Igreja ganha a manter suas posições retrógradas? - a resposta só pode ser uma: a Igreja quer ganhar almas para Cristo. Aquele que disse não ter vindo para agradar, mas para resgatar a criatura contaminada pelo pecado. Sem arrogância, mas com afabilidade, na simpatia mineira que é prudente e discreta, nosso bispo conquistou um espaço de respeito, admiração e afeto. Interessou-se pelos excluídos, sem descuidar dos privilegiados aos olhos do mundo. Investiu nas vocações e conheceu cada um dos novos operários da messe. Não se preocupou com a repercussão de atitudes que deveriam ser a regra, mas podem ser consideradas insólitas. Procedeu a rodízio nas paróquias. Sacudiu as estruturas que muitos pretendiam permanecessem estratificadas. E agora, ele mesmo parte.

Lição de quem assimila a realidade peregrina. Ninguém é habitante permanente desta terra. O lugar do ser humano é a pátria celeste. Para isso ele foi criado. Se as pessoas tivessem noção real e consciência plena dessa realidade inafastável, não lamentariam as separações nem se desesperariam ante a morte. Somos frágeis e imperfeitos, contudo. Por isso sofremos com as partidas. Mas a vida é feita de altos e baixos, dos pólos opostos que já instigavam os pré-socráticos. O que seria da alegria, não fora a tristeza? E da saúde, não fora a enfermidade? E da alvorada, não fosse o crepúsculo? O encontro com a falta do oxigênio da amizade é o que permite valorar - de maneira a mais adequada - a maravilha da atmosfera do convívio.

DOM GIL ANTONIO MOREIRA coleciona alguns signos pioneiros nesta sua passagem por Jundiaí. É o primeiro bispo que nos deixa por promoção do Santo Padre. É o primeiro que sai com vigor e desafiadora missão. A continuar o seu pastoreio, agora com redobrada expectativa. Deixa uma diocese abençoada. Que teve início santificado, pois ninguém pode duvidar da santidade de DOM GABRIEL PAULINO BUENO COUTO. E que prosseguiu privilegiada com a passagem do inefável DOM ROBERTO PINARELLO DE ALMEIDA e com o dinamismo do comunicador DOM AMAURY CASTANHO.

O retorno às alterosas permitirá a continuidade intensificada de uma atividade paralela, mas convergente com o cultivo das almas. O cultivo da história, da beleza, da cultura. Pois DOM GIL é um erudito. Faz jus a integrar qualquer silogeu de intelectuais. Tanto que integrava o Condephaat - Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo.

Não consegui concretizar meu humilde projeto de torná-lo membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em virtude de vicissitudes internas da instituição bandeirante. Mas já o recomendei para a Academia Mineira de Letras, onde outros sacerdotes já têm assento e onde seu talento será reconhecido. JUNDIAÍ se despede de DOM GIL ANTONIO MOREIRA contristada, mas jubilosa.

O misto de orgulho e lágrimas é mais comum do que possa parecer e está presente em inúmeras passagens existenciais. Qual o pai que não chora de alegria quando seu filho nasce? E quando sua filha se casa? Ou quando uma separação transitória torna fisicamente distante uma pessoa amada?

O planeta é cada dia menor e as viagens são rotina. Ainda nos veremos muitas vezes. Ele sabe que aqui deixou amigos de verdade. Aqueles que, muito além da afeição humana, partilham da mesma inabalável crença. Não é a proximidade dos corpos a garantia única da afeição. Esta é gratuita e desconhece distâncias. Aos muitos preitos que DOM GIL recebe, permito-me adicionar a humilde e eterna gratidão do filho reconhecido que foi confortado pela presença caridosa e cristã de seu bispo, no dia mais triste de sua já longa vida. O dia em que o pastor aquiesceu a pessoalmente encomendar o corpo querido, amado, que tanta falta fez, faz e fará, da melhor mãe do mundo.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.



Escrito por Renato Nalini às 09h34
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O Centenário das Letras


José Renato Nalini

A ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS comemora em 2009 o seu Centenário. Foi fundada em 27 de novembro de 1909, por um médico e ensaísta carioca, Joaquim José de Carvalho. Seu primeiro Presidente foi Brasílio Machado. No discurso inaugural, tentou definir o que significa uma Academia de Letras:

"Somos uma porção de vocações, e porção pequena para que seja a sua coesão mais intensa e laboriosa, mas vocações que se apagam no objetivo comum, não disputando honrarias e monopólios, umas nutridas de vaidades, outras cheias de ridículo. Somos obscuros; antes de nós outros muitos o foram. Na parcela de trabalho que tomamos por quinhão, bem sabemos que o sulco aberto agora será talvez mal alinhado, mas enche-nos a esperança de que pelo lavor de outras mãos se corrija o defeito do traçado, e dela cresça a abundância da colheita, nesta terra de São Paulo, sempre tão nutriente e pródiga de extraordinárias riquezas. À obscuridade, que somos, sucederá, talvez, a benemerência que nos escusa e perdoa o atrevimento da iniciativa".

Sulco mal alinhado, mas sobrevivente. Toda instituição voltada ao culto gratuito da beleza enfrenta intempéries num Estado-Nação ainda emergente. Não é diversa a situação da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS. Ela já contou com apoio oficial, abrigou os intelectuais mais acatados e prestigiados de São Paulo. Presidiram-na pensadores do porte de Amadeu Amaral, Alcântara Machado, Altino Arantes, Aristeo Seixas, Pedro Antonio de Oliveira Ribeiro Neto, Rubens Teixeira Scavone e Ives Gandra da Silva Martins.

Foi na presidência Altino Arantes que ela conseguiu construir o edifício do Largo do Arouche, em terreno doado pelo Estado de São Paulo, ao tempo de Fernando Costa e por ordem de José Carlos de Macedo Soares. Ao lançamento de sua pedra fundamental, a 25 de janeiro de 1948, compareceu o Presidente da República Eurico Gaspar Dutra. O arquiteto Jacques Pilon, autor do projeto, dirigiu pessoalmente a construção e o prédio histórico foi inaugurado em 1953.

Desde então, subsiste de maneira discreta, mas não deixa de preservar sua missão: a cultura da língua e da literatura nacional. Integram-na quarenta acadêmicos dos mais variados matizes culturais. Sempre conta com bi-acadêmicos, ou seja, aqueles que também pertencem à gloriosa ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Hoje eles são representados por Lygia Fagundes Telles, João Scantimburgo e José Mindlin. Prosseguir a caminhada por dez décadas, alcançar a era do efêmero e do consumismo, despertar o interesse de escritores que aspiram integrá-la, manter-se fiel à sua vocação, é digno de registro.

O que explica a permanência de uma Academia de Letras no século XXI? Sempre gosto de citar Claude Lévy Strauss que, ao capitular à insistência com que seus amigos o disputavam para a Academia Francesa, deu uma explicação em seu discurso de posse: - Passei a vida a estudar ritos longevos, de formas de convívio que não conheci e nunca mais irei conhecer, pois perdidas na noite dos tempos. Por que não me interessar por um ritual que, só na minha Pátria, tem 300 anos?

No Brasil, a ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS completa seus 100 primeiros anos. Fato auspicioso e que, não fora a indigência em que mergulhadas as instituições que só se devotam à cultura, sem impregnar-se no marketing, na exploração da vaidade e do consumismo, estaria a merecer repercussão nacional. Ante a inviabilidade de se contratar uma empresa especializada para promover eventos compatíveis com a relevância do aniversário, a ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS se abre à criatividade e aceita visitas e sugestões de congêneres, de outras entidades parceiras ou co-irmãs.

Também está aberta a atender aos convites que lhe forem feitos, para mostrar-se e fazer-se conhecer, ou conhecer melhor, com vistas a um roteiro de eventos preordenado a não deixar passar em branco a passagem do Centenário. Durante todo o ano de 2009, está aberta a esse contato saudável, na certeza de que toda manifestação e intento aproximativo, na reiteração microscópica dos pequenos encontros, será a comemoração possível para o Centenário da Casa de Letras voltada à tutela do vernáculo e ao estímulo à leitura e à escrita em solo bandeirante.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br. Visite o blog do Dr. Nalini no endereço http://renatonalini.zip.net



Escrito por Renato Nalini às 09h50
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Pedro Nava e Juiz de Fora


José Renato Nalini

 

O Bispo Diocesano Dom Gil Antonio Moreira foi nomeado Arcebispo de Juiz de Fora. Minas recupera seu filho, agora guindado ao Arcebispado e responsável por três notáveis dioceses: a própria Juiz de Fora e as sufragâneas Leopoldina e São João Del Rey. Em Juiz de Fora existe uma Universidade Federal e nela um famoso Centro de Estudos chamado Murilo Mendes. Foi nessa cidade que nasceu, em 1903, o memorialista Pedro Nava. Médico e literato, suicidou-se há vinte e cinco anos. Já escrevera uma carta suicida nove anos antes. Seus livros de memória são deliciosos. Já li e reli os seis. Lembro-me, com prazer, de "Baú de Ossos", "Galo das Trevas" e "O Círio Perfeito".

 

No centenário de seu nascimento, em 2003, o Centro de Estudos Murilo Mendes fez uma exposição com objetos que pertenceram a Pedro Nava. Inclusive uma cadeira, que tinha a fama de "fantasma" na família. Paulo Penido, herdeiro de Nava e organizador do livro "O Anfiteatro - Textos sobre Medicina", afirma possuir "altas desconfianças dessa cadeira". Isso porque morava no apartamento de Pedro Nava, "dormia perto dela e tinha sempre o mesmo pesadelo: o de um velho que me apertava a garganta". Num de seus livros, Pedro Nava conta que na cadeira se sentara o Presidente de Minas Gerais Antonio Carlos de Andrada. Depois da morte do escritor, a cadeira foi parar na casa de uma irmã de Paulo Penido. E só teria dado azar a seus herdeiros.

 

A cadeira foi parar na garagem. Um filho da dona pediu para ele o móvel e o seu casamento acabou. Quem afinal acabou ficando com ela foi o editor Cláudio Giordano, da Oficina Rubens Borba de Moraes, co-responsável pela reedição da obra de Nava, iniciada em 1998. A obra de Nava fala muito de Juiz de Fora, onde ele viveu por doze anos e clinicou no primeiro ano após formar-se em medicina. No prédio em que funcionava seu consultório hoje funciona o diretório Central dos Estudantes. Nava foi um médico às antigas. Era clínico geral e conhecia não apenas o corpo, mas a alma dos pacientes. Para ele, o que houve de principal no ano de 1922 não foi a Semana de Arte Moderna de São Paulo. Foi a obtenção da insulina, que abriu nova perspectiva para a vida dos diabéticos.

 

Foi um escritor tardio. Na verdade, até 1972, quando publicou o primeiro volume de suas memórias, era poeta bissexto. Para Joaquim Alves de Aguiar, professor de teoria literária da USP, autor de "Espaços da Memória - Um Estudo sobre Pedro Nava", publicado pela EDUSP, "ele foi viver para depois escrever". Para Aguiar, os seis volumes de suas memórias já se tornaram canônicas. Pedro Nava é o primeiro escritor brasileiro a produzir memórias alentadas, de grande qualidade estética e que foram muito populares quando lançadas. Há quem compare Pedro Nava a Marcel Proust. Assim como o francês produziu uma vasta obra, em vários volumes - "À procura do tempo perdido" - também Nava tem uma intimidade grande com os seus mortos. Foi Paulo Rónai quem afirmou: "O seu convívio com os mortos é um dos mais frutuosos e dele brotam muitas páginas de singela beleza e sabor inconfundível, só comparáveis às de um Proust".

 

A curta memória do brasileiro não costuma cultivar suas figuras exponenciais. Pedro Nava, vinte e cinco anos depois de haver praticado o suicídio, está praticamente esquecido. A releitura de suas memórias é interessante para quem se preocupa com a brevidade da existência. E deve servir de estímulo para aqueles que gostariam de registrar suas lembranças e se inibem. Por excesso de escrúpulos, pela inércia que paralisa tudo, por se acreditar que amanhã ainda haverá tempo.

 

Quando a morte chega - às vezes sem aviso prévio - então será tarde para esse registro. E ele é importante. A História não é apenas a documentação dos grandes eventos. Cada vez mais se prestigia a micro-história, ou seja, o relato de vidas particulares. Não necessariamente famosas. Toda experiência transmitida a uma coletividade difusa de leitores é interessante para legar experiências que só aquele que as sentiu pode comunicar. A crônica impessoal de grandes fatos pode ser útil.

 

Mas não é inútil a descrição de emoções, sentimentos, episódios, conflitos íntimos, mas também sonhos, aspirações e ambições sentidas por qualquer ser humano. Para quem quer saber mais sobre Pedro Nava, além de suas memórias, existem os livros "Território de Epidaura", em que ele escreve sobre Medicina, anteriormente à produção de sua obra-prima. Sobre ele a francesa Monique Moing escreveu uma biografia: "A Solidão Passada", além dos "Espaços da Memória" já citados, escritos por Joaquim Alves de Aguiar. 

 


José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.



Escrito por Renato Nalini às 10h00
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Filhos educam os pais


A tragédia ambiental brasileira deriva do comprometimento da formação moral. Evidente que a sociedade perdeu o rumo e já não sabe o que é certo e o que é errado. No fundo sabe, mas não tem coragem de dizer, menos ainda de se portar de forma coerente. As famílias declinaram de educar. Acreditam que "tudo está perdido", que não adianta mais. Delegam à escola, sofrível experiência mais voltada a produzir estatísticas do que a ensinar, a responsabilidade que é dela.

Recentes pesquisas mostraram que o adolescente é um tirano. Impõe sua vontade aos pais. Estes, perplexos e desfibrados, não sabem dizer não. E a adolescência começa cada vez mais cedo. Meninas de dez anos já se consideram mulheres. Garotos de onze/doze pensam ser adultos. O resultado é a catástrofe geral. Pouco se estuda. Soletra-se, mas não se entende o que se lê. A preguiça domina. O esforço foi banido. Vencer na vida é ganhar dinheiro. Seja como for.

Não é emblemático o fato de filhos de famílias bem constituídas se dedicarem ao tráfico de drogas? Num desempenho teatral eloquente, os jovens aparentam ser bons filhos, educados, cordatos e usam de outra linguagem quando chefiam suas gangues na periferia moral. Os pais nunca desconfiaram com o dinheiro que sobrava, com o sumiço dos filhos tarde da noite. Assim como os pais não querem saber com quem a filha sai, em casa de quem dorme. Qual o tipo de festa que frequentam e o que se consome ali.

Se tudo se torna descartável, também o ambiente desmerece qualquer respeito. O egoísmo faz com que todos produzam muito lixo, destruam muitas árvores, sujem muita água, ar e solo. Talvez não haja tempo para a conversão, tamanho o grau de devastação. Mas para quem quer tentar, uma reflexão poderá servir para uma tomada de atitude. A conurbação é um fenômeno inevitável. Hoje quase 85% dos brasileiros moram nas cidades. São Paulo é o exemplo mais exuberante. Aquilo que hoje já se chama ABECEDOG - o ABC, DIADEMA, OSASCO E GUARULHOS - constitui a grande massa cinzenta da metrópole paulistana.

Somente em escola pública, há mais de 2.200.000 alunos matriculados. Metade na Capital, ensino da Prefeitura e metade na rede estadual. Para um universo desses, uma população de mais de 6 milhões é afetada. Pense-se nos pais dos alunos, nos seus irmãos, nos avós ou agregados. Já descontado o fato de haver vários filhos dos mesmos pais matriculados na mesma rede pública. Se houvesse um projeto consistente de educação ambiental para o alunado, com envolvimento dos professores, talvez a infância se mostrasse a salvação ecológica desta região depauperada. São Paulo não tem do que se orgulhar em termos de tutela ambiental.

Veja-se: os rios que a atravessam não têm água. Têm o transporte lento e fétido do esgoto doméstico e dos dejetos industriais. O ar mata milhões a cada década, pois a emissão de gás carbônico abrevia a morte e reduz os ganhos na longevidade. Não há árvores suficientes. A Zona Leste é um cinza mortal. Traduz a falta de qualidade de vida da triste e pobre população excluída. As represas estão contaminadas. Os mananciais invadidos. O pulmão da Cantareira não resiste mais à pressão das invasões. Nem dos inescrupulosos loteadores clandestinos.

Somente a conversão da infância é que poderia trazer um basta a esse projeto premeditado de acabar com a vida. Se os alunos da rede escolar pública fossem transformados em agentes ambientais - basta saber o que significa a destruição da bio-diversidade, a falta de água e de ar limpo, a falta de verde, a contaminação resultante da poluição sob todas as formas - eles poderiam fazer a diferença. Talvez forçassem os pais a uma reação. Reação que começa na própria casa, onde se produz a tonelagem de dejetos diariamente lançada às ruas, aos córregos e aos rios mortos. Onde não se cultiva o verde. Onde não se exige árvore no passeio. Ao contrário: crescem os pedidos para a retirada de árvores e diminuem as pretensões a que cada casa tenha um exemplar arbóreo à sua frente.

Crianças convertidas a favor do ambientalismo poderiam ser fator de conversão de seus pais. Pais lenientes, omissos ou apenas ignorantes. Frutos dessa ausência de educação verdadeira, que é a formação do caráter e da consciência. O projeto de uma educação ambiental consistente, firme, séria e incessante, é a única alternativa. Será sonhar demais esperar por ele? E isso deve servir para todos os municípios, pois as lesões ao meio ambiente não respeitam as convenções humanas, os limites convencionais que separam um município do seu vizinho. 

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br



Escrito por Renato Nalini às 09h48
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Senhor, fazei-me diligente!


José Renato Nalini

A busca de sucesso faz com que as pessoas procurem auto-ajuda em cursos, em livros e mesmo com alavancas do contato profissional. É normal que o ser humano procure se aproximar de quem possa ajudá-lo. E se afaste de quem nada pode oferecer em troca. Simples incidência da lex mercatoria na vida de cada qual. A lei da oferta e da procura. O consumismo levado às últimas conseqüências. Raro encontrar-se alguém que procure se aconselhar mediante a leitura de pessoas que venceram, mas em outras circunstâncias e há muito tempo.

Houve alguém na História da Humanidade a quem foi prodigalizado tudo o que - em regra - os humanos almejam: dinheiro, amor, poder e glória. Mas foi a retribuição generosa da Providência diante de um pedido simples: ele queria apenas a sabedoria e o conhecimento. E porque pediu só isso, o mais lhe foi dado por acréscimo.

Salomão tinha uma habilidade rara, mas facilmente adquirível por quem se proponha a consegui-la: a diligência. O que é diligência? Esforço persistente que envolve trabalho pesado no intuito de realizar algo. São verbetes sinônimos de diligência: meticulosidade, zelo, dedicação, devoção.

Sobre a diligência, Salomão fala em Provérbios, 22:29: "Vês um homem diligente em seu trabalho? Ele será posto a serviço de reis". A lição é auscultar o que, em realidade, significa diligência. Talvez auxilie acrescentar às palavras de Salomão as qualidades que ele indicou em Provérbios 20:11: "Até por seus atos um jovem se dá a conhecer, se sua ação é pura ou se é correta". A pureza da diligência era a qualidade do ouro extraído das minas do Rei Salomão. Uma rocha exposta ao calor intenso faz derreter as impurezas e o que resta é ouro puro. A pureza da diligência se traduz no esforço de investir dias, horas e minutos em algo que vale a pena.

Quanto à correção, o sentido é o mesmo do uso correntio: honestidade. Não é suficiente o trabalho com persistência e tenacidade. É preciso fazê-lo de forma correta, honesta, com prontidão, competência e eficácia. Ou seja, sem atrasos e dentro do mais elevado nível de qualidade. O que significa imprimir criatividade, persistência, alavancas externas e auxílio de outras pessoas com o intuito de se atingir o resultado ambicionado.

Embora seja da natureza humana buscar a vereda do menor esforço, é urgente repensar os rumos da existência de cada qual. A motivação é algo que não depende de ninguém. Cada um sabe onde está o interruptor que o move. Só ele detém esse segredo. É algo contido dentro da consciência. Raramente se consegue detectar de fora para dentro. Ser diligente vale a pena. Pois quem é diligente recebe recompensas inestimáveis e quem o não é, consegue consequências desastrosas. Quem é diligente, diz Salomão, estará sempre em vantagem.

"Os planos do diligente levam à vantagem certa" - Provérbios, 21:5.  Qualquer competição que seja, na empresa, no trabalho, entre indivíduos, circunstâncias ou meramente se pensando em tempo, a diligência oferece vantagem única. E ela resultará em produtividade maior, realização plena, riqueza e satisfação.

O diligente é senhor da situação. O que Salomão diz: "O diligente será soberano, enquanto os negligentes se tornarão escravos" - Provérbios, 12:24. A diligência favorece o descortino, a perspicácia, a facilidade de enfrentamento de situações difíceis.

Ser diligente garante satisfação genuína. A maior parte das pessoas está faminta. Fome de coisas, de sentimentos, de reconhecimento. Fome de justiça. Ninguém parece satisfeito com nada. Mal se atende a um desejo e outro, de maior intensidade ainda, já parece surgir. Ora, para Salomão, "a alma dos diligentes é saciada" - Provérbios 13:4. A diligência conquista respeito e admiração de todos. Ser reconhecido é uma aspiração generalizada. Já o diligente é procurado pelos demais. Notadamente pelos poderosos. Os dotados de maior discernimento e capacidade de avaliar os semelhantes. Exatamente por sua diligência é que o diligente é procurado. Isso é o que Salomão quer dizer quando fala que seu trabalho "será posto a serviço de reis".

Ser diligente é ter vontade de trabalhar. Coisa que nem todos ostentam. Já os que trabalham com diligência dentro de sua especialidade ou de seu talento, sem dúvida conquistarão o sucesso material necessário à satisfação de seus desejos. "O homem que lavra a terra sacia-se de pão, mas o que segue os levianos sacia-se de pobreza" - Provérbios, 28:19.

Salomão ainda ensina: "Fortuna apressada diminui, quem ajunta pouco a pouco enriquece" - Provérbios, 13:11. Frase para se pensar. As fortunas obtidas de maneira rápida, sem que se saiba como, também podem se desfazer com facilidade. Há muito mais em Salomão e nos Provérbios para a gente refletir. Por ora, basta pedir com humildade: "Senhor, fazei-me diligente!".  

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.



Escrito por Renato Nalini às 15h49
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Quem quer ser sábio?


 

Há conhecido programa de auditório em que o apresentador indaga: "Quem quer dinheiro?". Todos querem. Já se ele indagasse: "Quem quer ser sábio?", alguém levantaria a mão? A sabedoria é um estágio longínquo e utópico. Somente um tolo se assumiria sábio. Para os amigos da sabedoria - os filósofos - a resposta poderia ser a advertência do oráculo de Delfos, depois celebrizada por Sócrates: "Só sei que nada sei".  Quanto mais se estuda, mais se adquire consciência de que é imenso o universo da ignorância. Por isso é que o aprendizado é um processo permanente. Começa mesmo antes de alguém nascer e continua até sua morte. Esta mesma, como dizia Mestra Esther de Figueiredo Ferraz, uma última lição para os humanos.

 

Houve na História da Humanidade alguém que foi sábio por dádiva divina. Nasceu por volta do ano 974 antes de Cristo e foi coroado rei de Israel por seu pai, o Rei Davi, pouco antes da morte deste. Salomão tinha apenas doze anos e se atemorizava ante a perspectiva de governar Israel. Diz o Velho Testamento que Deus apareceu para Salomão e perguntou o que ele queria. Salomão pediu apenas sabedoria e conhecimento para poder julgar com probidade o grande povo escolhido. É o que se lê em Reis, I, 39, II Crônicas, 1:10. Exatamente porque não pediu dinheiro, honras e vitórias sobre os inimigos, ele recebeu tudo o que queria, mais o que não pedira.

 

Salomão foi um dos homens mais ricos do mundo. Além de reservas de ouro que deveriam valer bilhões de dólares no mercado contemporâneo, possuía quatro mil estábulos para seus cavalos e carruagens. Sua folha de pagamento incluía doze mil cavaleiros. Governantes de nações do mundo inteiro buscaram seus conselhos e pagaram caro por eles. Boa parte das lições de Salomão estão no Livro dos Provérbios. A leitura atenta de seu conteúdo ainda pode trazer muita coisa boa para o leitor de hoje. Pois os conselhos salomônicos poderiam trazer, para quem de fato os seguir, bens da vida tais como sabedoria, prudência, capacidade de julgar, preservação e proteção, sucesso, saúde, honra, abundância financeira, elogios e promoções, independência econômica, confiança, força de caráter, coragem, realização pessoal, ótimos relacionamentos, uma vida cheia de sentido, amor e admiração das outras pessoas. Alguém precisa mais do que isso?

 

No decorrer da História, muita gente se apoiou em Salomão para vencer na vida. Steven K. Scott, que escreveu "Salomão, o homem mais rico que já existiu", com o subtítulo "A sabedoria da Bíblia para uma vida plena e bem-sucedida", editado pela Sextante, menciona entre os antigos George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln, Henry Ford e Thomas Edison. Todos eles leram os Provérbios na sua juventude. Mas também ícones modernos admitem que os Provérbios serviram para a formatação de sua vida: Bill Gates, Sam Walton, Helen Keller, Steven Spielberg e Oprah Winfrey. 

 

Foram citados os americanos, da pátria de origem do escritor. Mas em todas as nações pessoas bem-sucedidas se valeram dos ensinamentos do filho de Davi. Continuam válidos e mais necessários do que nunca: "Guarda as veredas do juízo". Quanta falta de discernimento se vê a cada dia em todos os quadrantes? Os que deixam as veredas da retidão para andarem pelos caminhos das trevas, mais dia menos dia, encontrarão sua recompensa. Quantos ainda se alegram de fazer o mal, folgam com as perversidades dos maus. Não sejas sábio aos teus próprios olhos. Convite à humildade. Não se deve rejeitar a disciplina do Senhor, nem se enfadar de Sua repreensão. Pois o Senhor repreende a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem. Salomão recomenda o exercício da generosidade: Não te furtes a fazer o bem a quem de direito, estando na tua mão o poder de fazê-lo. Não digas ao teu próximo: Vai, e volta amanhã, então to darei, se o tens agora contigo.

 

O aconselhamento parece feito para os dias que vivemos: Foge da presença do homem insensato, porque nele não divisarás lábios de conhecimento. A sabedoria do prudente é entender o seu próprio caminho, mas a estultícia dos insensatos é enganadora. Fugir da maledicência e nada falar se não puder falar o bem. Palavras agradáveis são como favo de mel, doces para a alma e medicina para o corpo. O homem perverso espalha contendas e o difamador separa os maiores amigos. O homem violento alicia o seu companheiro e o guia por um caminho que não é bom. Melhor é um bocado seco, e tranquilidade, do que a casa farta de carnes, e contendas. São 31 capítulos que merecem leitura atenta e mais atenta reflexão. Afinal, Salomão não é apenas aquele rei que descobriu qual a mãe verdadeira, ao se propor separar a criança em duas metades, para entregar cada uma delas às duas mulheres que a disputavam. Ele foi um sábio e o mundo precisa, talvez como nunca tenha precisado antes, de um pouco mais de sabedoria.

José Renato Nalini
é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.



Escrito por Renato Nalini às 08h44
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O que você sente?


José Renato Nalini

OPRAH WINFREY é uma das mulheres mais ricas dos Estados Unidos. Tem um programa televisivo assistido por milhões de pessoas. Influencia muitas delas e forma a opinião pública. Está muito feliz porque Barak Obama se tornou Presidente. Mas não deixa de continuar com o seu trabalho de orientação voltado a inúmeras causas. Assisti dia desses a um programa dedicado à obesidade na adolescência. O americano se alimenta mal. O excesso de calorias é a regra. Sanduíches repletos de pasta de amendoim, quando não molhados com catchup e bacon. O resultado é uma tonelagem excessiva na infância e na juventude.

Longe de traduzir saúde e bem-estar, distante da concepção generalizada de que o gordo é bonachão e bem humorado, a situação gera conflitos e angústia.Um grupo de jovens obesos se dispôs a participar de uma experiência. Permitiu um acompanhamento diuturno da equipe de filmagem para verificar o que ocorria na sua rotina. Evidente que a alimentação de alguém que já superou a casa dos cem quilos é algo previsível. Vários hambúrgueres pela manhã, mais algumas tigelas de cereais com leite e creme, ovos fritos, pizza e tudo aquilo que faz a festa de uma pessoa com excelente apetite. O que não foi surpresa foi a conclusão de que não era a alimentação o problema. Ou, pelo menos, não era o maior problema.

A compulsão por comida era gerada na mente do jovem obeso. Cada qual possuía um motivo de aflição e de transtorno emotivo. A equipe de profissionais - nutricionistas, professores de educação física, psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais - trabalhou também com os pais. Depois de uma longa jornada de convívio, apurou-se que o relacionamento entre as gerações não era aquela maravilha.

Um dos exercícios foi despertar no jovem a vontade de transformação. A psicanalista fazia com que a pessoa se expusesse de maneira muito franca. A pergunta era: - O que você sente? Por óbvio, estava subentendido o complemento: - O que você se sente sendo gordo?

As respostas não variaram muito. A primeira respondeu que se sentia envergonhada, cansada das caçoadas na escola. Outros disseram sentir raiva. Raiva de ser gordo, raiva da mãe, que se considerava culpada da gordura da filha. Raiva do pai, que abandonou a mãe. Raiva da genitora, por não ter sido capaz de segurar o pai. Enfim, o exercício foi um verdadeiro psicodrama, em que filhos e pais acabaram por chorar e por se abraçar. Com a promessa de que alguma coisa seria feita.Não basta mudar o padrão de alimentação.

O mais importante era mudar a consciência dessas famílias. Percebeu-se aquilo que é muito comum em muitos dos núcleos familiares. As pessoas não conversam. Não abordam aquilo que as preocupa. Os pais não conhecem os filhos e vice-versa.

Um problema como a obesidade não tem início repentino. É um longo processo, que levou demorado percurso temporal para atingir o grau de seriedade a reclamar tratamento médico. Óbvio que alguns dos casos podem ser orgânicos e necessitam de cuidados especiais, inclusive com a cirurgia de redução do estômago. Mas a maior parte é suscetível de tratamento que começa com a mudança de hábitos.

É de criança que os pais precisam incutir nos filhos o prazer de uma boa alimentação. Consumir bastante verdura, fibra, líquidos. Abominar tudo aquilo que só contribui para produzir gordura. Aliar esse alimento saudável ao exercício físico. Caminhar é um santo remédio. Nadar, melhor ainda. Pedalar, coisa excelente, que o uso do carro veio a inibir. Mas que ainda parece a alternativa à contaminação total do planeta pelo uso indiscriminado dos combustíveis fósseis.

Nada disso funciona, contudo, se não houver um diálogo franco, aberto, honesto, veraz, entre pais e filhos. Se é natural a existência de um fosso entre gerações, é também natural que o amor seja a ponte a uni-las. Pais sempre querem o melhor para seus filhos. Mas não se aprende a ser pai. É-se pai e mãe, sem preparo. O treino é também a cena definitiva. Não há ensaio. Assim como na vida. Um bom início é o estabelecimento da verdade. Esse exercício que a Oprah fez realizar em seu programa pode ser feito em cada casa.

Vocês, pais, já perguntaram aos seus filhos o que eles sentem? Como se sentem? Quais suas expectativas? Quais as qualidades que eles enxergam nos pais? E os defeitos?
Como podemos melhorar essa relação? O que está no meu alcance fazer? E você entrará com que mudança de atitude? São indagações que não custam nada fazer. E que podem aperfeiçoar, de maneira substancial e consistente, o relacionamento familiar. Aquele que funciona como lastro durante todas as vicissitudes. Se a pessoa tem bom lastro, ela não soçobra. Ela pode enfrentar turbulências, mas não perecerá. É o que os pais costumam querer para seus filhos.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail:
jrenatonalini@uol.com.br.


Escrito por Renato Nalini às 12h32
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Você consegue meditar?


José Renato Nalini

A vida contemporânea impõe um ritmo que nem todos conseguem acompanhar. Velocidade é o signo desta era. Tudo é para "ontem". Urgência é palavra das mais usadas. Pressa, rapidez, eficiência. A sociedade exige muito de todos e todos acostumam-se a se auto-exigir com idêntica intensidade.

Por isso é que parece difícil encontrar um momento para a reflexão. Quem é que continua a conversar consigo mesmo? A se auto-indagar sobre os rumos de sua vida, a avaliar o que tem feito de sua existência? A constatar que ela é breve. Cada vez mais efêmera. Frágil e sujeita a uma série crescente de vicissitudes?

A requisição da vida moderna não contribui para a capacidade de meditação. Há tempo para tudo, menos para si mesmo. Cuida-se do superficial, negligencia-se com o fundamental. O fundamental é estar bem consigo próprio.

Mesmo assim, encontra-se um e outro sintoma de que alguns conseguem driblar o moto contínuo. E aparentemente perpétuo, ao menos enquanto dure a experiência existencial de cada um.

No Bowery, bairro ao sul de Manhattan, em NY, todas as semanas alguns punks se reúnem, sentam-se no chão, fecham os olhos e respiram profundamente. Chamada Dharma Punx, a reunião integra uma rede nacional de meditação budista. Uma das aulas é sobre como perdoar pessoas impossíveis de serem perdoadas. O líder, chamado Josh Korda, ajoelha-se à frente do grupo. Não considera antagônico o movimento punk, geralmente ligado à agressividade, e o budismo estimulador do perdão. Os dois processos se enraízam na insatisfação com o modo como as coisas são, o desejo de viver no presente e uma sede de paz mental.

Korda tem 48 anos, é tatuado dos dedos ao maxilar, começou a liderar as reuniões do Dharma Punx há três anos. Os participantes têm de 20 a 30 e poucos anos. O líder faz referência a suas bandas favoritas, como a Suicidal Tendencies ou os Cro-Mags, grupos considerados "hard-core". Os freqüentadores do Dharma Punx gostam dos encontros porque ali não há pregação nem proselitismo, cantos ou menções a dogmas.

Alguns dizem não suportar aulas de meditação em que se cobra para entrar, outros não gostam de velas. As sessões não têm drama, cada um dá o que quiser, se quiser, para a continuidade das reuniões. O Dharma Punx começou com Levine, de 37 anos, cujo livro, publicado em 2003, também se chama Dharma Punx. Ele conta a sua recuperação do vício da heroína, crack e álcool, graças à meditação budista. Levine começou a meditar quando esteve em um centro de detenção juvenil na Califórnia, por haver roubado para sustentar o vício. Situação comum a tantos viciados em todo o mundo.

Para o ex-viciado, meditar foi uma libertação. Embora na cadeia, refletir era melhor do que o medo do futuro ou manter as correntes que o escravizavam ao passado. Os encontros significam, para muitos dos que ali encontram conforto, uma fuga da competitividade crônica de Nova Iorque. Uma cabeleireira ficou intrigada com a mensagem de Korda de que "não há uma quantidade finita de felicidade no mundo". Ou seja, a felicidade é uma conquista individual, que pode ser desenvolvida de maneira livre e autônoma. O fato de alguém se sentir melhor, não significa que esse acréscimo foi subtraído de outrem.

Mensagem que serve para a juventude em todo o mundo e que pode ser experimentada nos ambientes os mais distintos. Neste planeta, em que a droga, embora assim chamada, consegue mais e mais adeptos, leva adultos ao consumo irresponsável, é causa de mortes, violência e tantas atrocidades, qualquer alternativa é preferível ao vício. Ainda que pouco ortodoxa.

Os responsáveis pela recuperação dos viciados e os preocupados com o desatino da juventude precisam dispor de vários instrumentos para desviá-los desta senda. Evidente que o esporte, as artes, a cultura, o interesse pelo ambiente, sejam o melhor caminho. Mas há grupos que não se interessam por qualquer deles. Estes não podem ser abandonados. Precisam receber algo consentâneo com suas expectativas.

Meditação budista, meditação zen, refúgios naturalistas, movimentos quais a "Toca de Assis" e outros, tudo deve ser considerado. Afinal, a exuberância da natureza humana está imune a padronizações. A homogeneidade é característica de formigueiros ou colméias, não do gregarismo pessoal.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail:
jrenatonalini@uol.com.br.



Escrito por Renato Nalini às 11h01
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Mindinho, seu vizinho...


José Renato Nalini



...Pai-de-todos, fura-bolos e mata-piolhos. Antigamente as crianças sabiam os apelidos de seus dedos no treinamento para identificá-los. Hoje, se alguém falar em "identidade digital", sem dúvida pensará no mundo da telemática ou das TICs - Tecnologias de Informação e Comunicação que, na realidade, dominam o mundo virtual. Pois é incrível concluir que o mindinho, o humilde dedo mínimo, considerado acessório decorativo ou extensão elegante da taça de vinho, é tão importante para o seu dono.

Quem não tem o dedo mindinho perde 50% da força da mão, diz Laurie Rogers, terapeuta ocupacional especializada em terapia da mão. Enquanto a função dos dedos indicador e médio, junto com o polegar, é de pinçar e agarrar, o mindinho se une ao anular para dar força. Não são raras as fraturas nos dedos. Os ortopedistas e traumatologistas que o digam.

E as ocorrências no dedinho e do seu metacarpo - osso que vai da base do dedo até dentro da mão - ocorrem com quase o dobro da freqüência de fraturas em outros conjuntos do dedo. Consertar o estrago pode envolver pinos, placas e parafusos. Material de trabalho de meu amigo José Carlos Bongiovani, que já me muniu deles quando fraturei meu braço direito no Natal de 1982. Depois disso, em 1991, fraturei o calcâneo ao sair de um box de banho num hotel em Paris. Mal havia chegado de um congresso em Portugal, no qual apenas trabalhara. Fui a Paris com a intenção de passear.
Tarde esplêndida, dia radioso e planos de caminhar a pé para explorar a cidade. Só que "o homem põe, Deus dispõe". Escorreguei, bati o calcanhar, senti o impacto. Mas achei que não havia fraturado nada. Saí à rua e não cheguei a percorrer um quarteirão. O pé não podia tocar o chão. Pulando numa perna só voltei ao hotel, chamei o Pronto-Socorro - bendito voucher de seguro-saúde! - e fui atendido por uma médica que me encaminhou para um hospital. Era uma noite de jogo da França.

Os médicos estavam mais interessados em torcer do que em atender o forasteiro. Mesmo assim, riram muito e chamaram os colegas. Era difícil a fratura do calcâneo! As hipóteses mencionadas no curso de Medicina era a dos pilotos atingidos que mantinham seus pés rigidamente postos como a brecar e impedir a queda do avião. Quando vivos, haviam fraturado o calcâneo. Ainda fiquei dois dias em Paris. Antonio Cezar Peluso, hoje Ministro do STF, e sua esposa Lúcia, levaram-me doces e depois me fizeram jantar com eles. Mas voltei. De cadeira de rodas, com prioridade no atendimento. Mas de pé quebrado. Foi um longo período de fisioterapia no Samaritano.

Tudo isso para mostrar como aparentes insignificâncias têm uma função precisa no funcionamento deste complexo corpo humano. Quem diria que o mindinho tem essa importância e que o calcâneo fraturado impeça alguém de caminhar? Interessante observar que os darwinistas consideram naturais todos os fenômenos e perfeitamente explicáveis, à luz da seleção natural, o funcionamento desta estrutura feita de ossos, cartilagens, tecidos, artérias, veias, músculos, carne e substâncias líquidas que é o único corpo que todos temos.

Que maravilha tudo ser fruto de um acaso! De uma grande explosão! Do Big-Bang ou seja lá o que for. Como é que os mínimos detalhes foram objeto de minuciosa concatenação, de maneira que a cada minúscula parte deste arcabouço corresponda uma determinada tarefa?

Na minha humilde ignorância, contento-me com a explicação criacionista. Não pretendo que todos me acompanhem. Mas me satisfaço com a convicção de que nada é fruto do acaso. A perfeição da normatividade cósmica, aos poucos desvendada por esta criatura imperfeita, mas com vocação à perfectibilidade, mostra uma coerência lógica inescusável.

Assim como parece incrível que um conjunto de notas musicais, misturadas e chacoalhadas numa caixa e arremessadas ao solo, resultem numa sinfonia, não acho suficiente acreditar que toda a magia vital derive da aleatória evolução das espécies.

Admito a evolução, à luz do pensamento de Teillard de Chardin. Sinto o élan vital bergsoniano. Sou frágil, falível e vulnerável. Mas acreditar no Ser superior que suscitou tudo isto é, para mim, imperativo da razão. Assim como se torna cada vez mais impositivo acreditar que este estágio é muito pouco para a infinitude de nossos sonhos.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.



Escrito por Renato Nalini às 10h59
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O fim dos tempos


Há quem duvide das profecias apocalípticas. O mundo já passou por muitas vicissitudes e a humanidade sempre encontrou fórmula para sobreviver. Mais triste, mais reduzida, mas viva. Pessoas sensíveis e menos ufanistas encontram razão para achar que os sinais dos fins dos tempos são nítidos. Basta querer enxergar. A aids, que continua a matar, não seria a morte gerada pela luxúria?  Os paradoxos da civilização contemporânea não constituem sintoma de que o trajeto humano sobre o planeta aproxima-se de seu termo?

A instantaneidade nas comunicações permite acompanhar o que ocorre no mundo em tempo real. Mas a mídia se atém ao insólito. Nem precisaria existir um programa de elevada audiência chamado "fantástico". O interesse da imprensa é justamente divulgar o extravagante. Aquilo que só existe na imaginação. Alguém poderia imaginar que em 2009, ao final da primeira década do terceiro milênio, exista um povo que morre de fome?

Pois em Zimbábue, crianças descalças correm atrás de um caminhão que transporta milho. Catam, ansiosas, cada grão caído, como se fosse moeda. Camponeses miseráveis arrancam as cascas de grilo e besouros ainda vivos e jogam o que resta a uma panela. "Se você consegue insetos, tem uma refeição", diz Stanford Nhira, camponês magérrimo, cujas costelas aparecem sob a pele. Suas meias caem soltas nos tornozelos, que parecem gravetos.

Seres humanos semimortos de fome povoam a paisagem antes fértil do Zimbábue. Pesquisa recente da ONU constatou que 7 em cada 10 pessoas entrevistadas tinham comido nada ou apenas uma refeição no dia anterior. É um povo dominado há quase trinta anos por Robert Mugabe, presidente autoritário. Isso impôs o sétimo ano consecutivo de fome generalizada. Não é somente a crueldade do ditador que produziu a situação surreal. É o maltrato perpetrado pelo homem contra a natureza. Estiagem, chuvas erráticas, tudo desencadeado por política agrícola desastrosa.

A tragédia assume intensidade inimaginável. A fome está muito pior. Pesquisa feita em outubro último pelo Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas constatou deterioração chocante. A parcela de zimbabuanos que não tinham comido nada no dia anterior subira de zero para 12%, enquanto a de pessoas que tinham comido apenas uma refeição crescera de 13%, em 2007, para 60% em outubro de 2008. Entre junho e agosto, Mugabe proibiu as organizações humanitárias internacionais de atuar no país.

Privou mais de um milhão de conterrâneos de alimentos e assistência básica. E o fez, sob argumento de que alguns grupos humanitários ocidentais apoiavam seu rival político, Morgan Tsvangirai, que o derrotou nas urnas em março. Só que, sintomaticamente, o opositor retirou-se da disputa antes do segundo turno em 27 de junho.

Por isso é que no povoado de Jirira, em Maschonaland, perto da capital Harare, os moradores se levantam de madrugada e procuram os disputados, pequenos e malcheirosos frutos chamados "hacha". A polpa doce e fibrosa da fruta é o único alimento dos camponeses. As frutas são infestadas de pequenos vermes marrons. Mesmo assim, são consumidas por todos. O pior é que mesmo essa fonte de subsistência vai terminar. A estação da fruta já está acabando. O que virá depois? É claro que poucos se condoerão com este relato. Não é estória. É real. Mas a África está longe. Qual será sua reação ao saber que aqui mesmo, a poucos metros de sua casa, existe quem passe fome?

O desperdício de um povo que nunca passou por guerra, que não tem inverno rigoroso, que vive numa terra em que "se plantando tudo dá", não sabe o que é fome. O lixo brasileiro é um dos mais ricos do mundo. Há quem considere "educado" servir-se de muito mais do que vai consumir, para devolver pratos repletos, como se a refeição só se destinasse ao descarte. Só que essa não é a fome que mata. Mortal é a fome de afeto. A fome de carinho. A fome de respeito. A fome de dignidade. Há uma legião de famintos dessa fome insaciável, que atormenta e machuca, mas que é tão simples de resolver. Basta a cada qual procurar - com vontade e de verdade - situar-se na pessoa do outro. E fazer por este, o que acha justo lhe seja feito.  Esse o remédio para curar o mundo e talvez prorrogar o fim dos tempos.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.



Escrito por Renato Nalini às 10h26
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Estava demorando...


A densificação das regiões conurbadas é fenômeno irreversível. Aos poucos, a mancha edificada toma conta de todos os espaços. A comparação é cruel, mas inegável: é a metástase da urbanificação. Destruidora do verde, poluidora das poucas águas que restam. Retificadora dos rios, que se convertem nos canais fétidos, na lentidão do esgoto sem tratamento. Repositório da chuva ácida que já não é benção, mas flagelo. Inunda, corrói, mata e desespera.

Dimensão continental foi dom inexplorado pelo colonizador e seu sucessor. Prefere-se o amontoado litorâneo, à custa da derrubada do mato nativo, do qual a Mata Atlântica é mera reminiscência constitucional. São Paulo, Campinas, São José dos Campos e Rio de Janeiro formam único conglomerado. Povoado por imensa legião de excluídos, com alguns bunkers nos quais afortunados presumem residir seguros. Se o vaticínio de analistas sérios vier a se confirmar, a fome poderá surgir no próximo ano. Este ano é o das colheitas pobres. Plantou-se menos. O ano que vem é o da ausência de colheitas. Não é inviável o saque, a revolta urbana, a rebelião das massas expelidas do banquete consumista. Haverá segurança confiável se isso ocorrer?

Mas a reflexão de hoje tem outro foco. Na insensatez e descontrole do crescimento imobiliário, nem tudo é objeto da fiscalização e da repressão edilícia. Apurou-se, tardiamente é verdade, que a drenagem feita por construtoras reduz o nível do lençol freático. A redução da água subterrânea causa rachaduras em imóveis, afunda ruas e seca os últimos lagos. Mais adiante, reduzirá ainda mais o nível dos derradeiros cursos d´água.

Na capital paulista, de 1997 a 2007, foram edificados 3.179 prédios. No Itaim Bibi, nesse período, o lençol freático ficou 4 metros mais baixo. A afirmação é de Milton Golombek, diretor da Abeg - Associação Brasileira de Empresas de Projetos e Consultoria em Engenharia Geotécnica. O fenômeno resulta da drenagem que as construtoras fazem nas áreas onde o lençol freático está mais próximo à superfície. E muitos prédios continuam bombeando essa água para a rua, mesmo depois de pronto o imóvel, para evitar que o subsolo, onde ficam as garagens, seja inundado.

A constatação é singela. Se você retira água, esse espaço vácuo produzirá reacomodação do solo. Isso já ocorreu na Califórnia e de maneira trágica. Mas nunca sabemos extrair lições quando o negócio é lucro a qualquer custo. O Ministério Público, na verdade a única instituição capaz de enfrentar a ira dos empreendedores, pois assume a defesa do ambiente e dos interesses difusos, ingressará com ação civil pública para impor um controle. De acordo com o Promotor do Meio Ambiente da Capital, José Eduardo Ismael Lutti, não há controle por parte do DAEE, da Prefeitura ou de qualquer outro organismo.

Existirá controle mais adequado em relação aos poços artesianos? Os edifícios iniciam sua obra com a perfuração de um poço artesiano. Com isso, pensa-se fugir à tarifa pelo fornecimento de água tratada. Ninguém se preocupa em avaliar o que significa a extração da água na redução do nível do lençol freático e mesmo do comprometimento das águas subterrâneas por contaminação. Já se afirmou que até o Aqüífero Guarani, considerada a maior reserva de água doce do continente, já estaria comprometido por poluição resultante de má utilização do sistema de extração por particulares.

Ainda é comum ver-se água continuamente a jorrar de prédios na capital. Assim como a "praga" dos serviçais dos condomínios que - acintosamente - todos os dias desperdiçam água tratada para lavar as áreas comuns dos edifícios. Desprovidos de cultura e de orientação de seus responsáveis, abusam da "vassoura hidráulica". É o jato da mangueira que faz as vezes de vassoura, instrumento aposentado pelos zelosos contínuos, ajudantes ou auxiliares em serviços gerais.

O alerta se fez. Estava demorando. Quanto tempo demorará para que as providências sejam tomadas? É o Judiciário, com sua lentidão crônica e suas intermináveis quatro instâncias, que dirá a última palavra. Quando ela sobrevier, talvez a situação já seja irremediável.



José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.



Escrito por Renato Nalini às 10h45
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Cri(se)atividade


Crise, do grego krisis, é o momento de decisão. Ação de distinguir, escolher, discernir para a escolha do melhor caminho. Oportunidade rara de crescer. Em todos os sentidos. Não por acaso, a mesma primeira sílaba está no verbete criatividade. A crise reclama imaginação. Pioneirismo. Ousadia. E se tirarmos o "cri", resta atividade. É preciso agir. O momento para a dúvida é só aquele mínimo necessário para se adquirir um rumo. Dúvida metódica, a alternativa para o impulso inconsciente. Não dúvida sistemática: paralisante, neutralizadora e esterilizadora. A partir destas reflexões, um mundo enorme se descortina a quem ficou perplexo com a crise que se abateu sobre o mundo. Não que os mais lúcidos não pressentissem a sua inevitabilidade. Poder-se-ia errar na previsão temporal. Mas a borrasca era certa. O mundo virtual, que envolve o globo nas últimas décadas, contaminou também o território econômico. Viveu-se de ilusão e de ganância. Nada era real.

Deixemos as análises para os profetas do dia seguinte. Aqueles que gostam de iniciar suas perorações com o indefectível "Eu não disse? Eu não avisei?". Os demais, temos de enfrentar o vendaval. O mundo já atravessou outras crises. Talvez mais sérias. Com certeza, a humanidade já viu dias mais tristes, conseqüências mais graves, desânimo de intensidade que se não compara com o presente. Nem por isso declinemos de fazer a nossa parte. O que é que cada um pode fazer nesta hora? Primeiro, cultivar a humildade.

Reconhecer-se impotente para decidir os destinos do mundo. Nem aqueles que pretensamente possuem esse poder fruem de toda a potencialidade presumida. O ser humano é um caniço frágil. De vida efêmera. Dura algumas décadas, se tanto. Só que é um caniço pensante. Em seguida, munir-se de paciência. Tudo passa sobre a Terra. O tempo, implacável, cicatriza. Traz o esquecimento. Relativiza tudo. Enquanto ele não atua, cabe fazer uma revisão nos valores que inspiram esta civilização. A humanidade existe para consumir? É o que parece. A insatisfação é o sentimento mais comum a todos.

Ninguém está satisfeito com o que tem. Almeja mais. O que é considerado saudável, pois a ambição legítima é a alavanca propulsora do progresso. Mas o que significa progresso?
Saramago, que se aproxima dos noventa anos, afirmou há algum tempo que não existe verdadeiro progresso, a não ser o progresso moral. Progredimos moralmente? Quem é que ousaria responder afirmativamente? Veja-se que a tecnologia high-tech propicia tanto desenvolvimento nas comunicações, na medicina, no avanço científico. A ciência consegue prolongar a vida, pretende fabricar vida, modifica as espécies. Faz cirurgia à distância. Prospecta o cosmos. Planeja o futuro da espécie.

Mas o conteúdo miserável - a matéria-prima ordinária de que é feito o homem - manteve intactos aqueles sentimentos instintivos e primários. O ódio, o ressentimento, a inveja, o orgulho, a crueldade aparentemente imotivada. O que justifica a dificuldade em perdoar? O que significa irmãos que não se falam por causa de dinheiro? O que representa filhos matarem pais, pais matarem filhos, com o sacrifício daquele código genético da auto-preservação da família? A indiferença, a insensibilidade, a conduta egoísta de quem se considera infinito ainda evidenciam que há um longo caminho a refazer.

Antes de se lamentar as perdas materiais, é mais grave a mutação moral da humanidade. O descompromisso com o próximo. A falta de solidariedade. A ausência de amor. Sentimento que pode mover o sol e as demais estrelas, mas que é pervertido e mutilado pela multidão que aprendeu a navegar pela internet, que curte a velocidade, que acompanha o que se passa pelo mundo, mas ignora o que ocorre dentro de sua consciência. A criatividade que a crise impõe passa, com certeza, pela faxina dessas alminhas perdidas. Aquelas que só pensaram em si mesmas, na própria satisfação, ligada à matéria podre, que é instrumento e não pode ser convertida em finalidade existencial. É tempo de revisar valores, de reformular a cartilha da rotina, de lembrar que só existe neste mundo uma certeza: a visita da morte. Ela está à espreita, não tem critérios nem lógica.

Quem é que está pronto para atendê-la e para considerá-la fato natural e inevitável? Porta de entrada para uma esfera de maior dignidade? Sem isso, parece que a vida não vale a pena ser vivida.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.



Escrito por Renato Nalini às 08h16
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Surdez coletiva


Acho que muita gente já vivenciou a experiência cotidiana. Você está no trânsito e, diante de um semáforo ou engarrafamento, chega a seu lado outro carro. Dentro dele, um jovem se estrebucha ao som de uma percussão que parece chacoalhar todo o carro dele e, infelizmente, o seu também. A reverberação repercute em sua caixa torácica. Você não vê o momento de deixá-lo prosseguir em sua alucinação acústica. O espécime não é raro. Ao contrário: cada dia mais freqüente. É aquele que exige que as festas de casamento sejam happenings destinados a afugentar a terceira idade. Mal se acomodam as pessoas no local do bufê e os DJs iniciam a parafernália que põe todos a macaquear, liberando-se das gravatas, paletós, dos sapatos e da compostura.

A juventude mundial presta um serviço aos profissionais da audição. Já existem muitos jovens viciados em fones de ouvido a partir da pré-adolescência, quando não da infância.Quando chegam aos 20 anos de crônica oitiva das músicas favoritas a todo volume, têm as células ciliadas do ouvido interno irreversivelmente danificadas. Perdem grande parte da sensibilidade a freqüências agudas.

Nos Estados Unidos, o Instituto de Audição Infantil relata que a perda de audição entre crianças e jovens cresce assustadoramente. Aqui não é diferente. A diferença única é que em país subdesenvolvido há menos pesquisas. A deficiência acompanhará toda a vida do deficiente auditivo. Dir-se-á que o mundo é barulhento. Todos são importunados por sons sobre os quais não detêm qualquer controle. Buzinas, escapamentos, motosserras, cortadores de grama, aspiradores de pó, alarmes de carro, alarmes de casa, sirenes, motos. E o que dizer das britadeiras e dos bate-estacas do boom imobiliário?

Se você precisa gritar para que alguém possa ouvi-lo - e isso não ocorre só em festas de casamento - é porque sua audição está sob um nível perigoso de decibéis. Todos somos responsáveis. Presenteamos crianças com brinquedos barulhentos. Depois, fornecemos aparelhos de som pessoais que podem danificar permanentemente a audição. Quando procuramos cuidar da saúde física, freqüentamos academias em que a percussão a todo volume é ingrediente indutor da adrenalina.

Os especialistas sabem que a perda auditiva provocada pelo ruído surge de duas formas: com a rápida exposição a um som muito intenso ou com a exposição permanente a um volume moderado. Aqui os efeitos a longo prazo dos tocadores de MP3 ouvidos em volume suficiente para se sobrepor ao barulho da rua. Eles produzem cerca de 105 decibéis - muito mais do que os 85 decibéis a partir dos quais começam os danos. A intensidade do som se multiplica por 10 a cada 10 decibéis. Bastam 89 segundos de exposição a 110 decibéis para que ocorra dano auditivo. Uma única exposição a mais de 140 decibéis, o limiar da dor, já causa danos. Nem se diga que os fones por condução óssea, encaixados sobre as orelhas e que transmitem o som pelo crânio até o ouvido interno, resolvam o problema. Esses fones permitem ouvir um carro se aproximando ou uma pessoa falando. Mas a tendência do usuário é aumentar o volume para abafar o som ambiente. E isso danifica as 15 mil minúsculas células ciliadas do ouvido interno, que transferem a energia sonora para o cérebro. Até mesmo algumas confissões religiosas abusam de seus serviços de som. Recente lei foi considerada inconstitucional pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça e tive a oportunidade de afirmar: - "Os Evangelhos dizem: Pedi e recebereis. Não "gritai" e recebereis".

A legião de surdos e de futuros surdos talvez não se convença. Mas o ideal seria pregar o benefício do silêncio. Atividades silenciosas como a leitura, a solução de palavras-cruzadas, o jogo do xadrês, a montagem de quebra-cabeças, o jogo de vídeo-games educativos, pintar, freqüentar bibliotecas e museus. Sussurrar, falar baixo, cochichar, além de menos ofensivo para a capacidade auditiva de qualquer pessoa, tem um aspecto instigante. Quem não grita faz com que o seu interlocutor - obrigatoriamente - preste atenção ao que diz. O que não é pouca coisa nesta era em que todos querem falar e ninguém se dispõe a ouvir. 

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de "A Rebelião da Toga", Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.



Escrito por Renato Nalini às 14h15
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